Primata ameaçado sofre com 'efeito de aglomeração' e risco silencioso de extinção

  • 13/05/2026
(Foto: Reprodução)
Primata ameaçado sofre com 'efeito de aglomeração' e risco silencioso de extinção Encontrar muitos animais de uma espécie criticamente ameaçada em um mesmo local costuma ser motivo de comemoração para a conservação. No entanto, para o guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae), primata endêmico do semiárido brasileiro, essa aparente abundância é um alerta vermelho. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Um novo estudo publicado na revista científica Journal for Nature Conservation revela que a destruição do bioma está forçando esses animais a se aglomerarem nos poucos remanescentes de floresta que ainda existem. A pesquisa foi conduzida por Bianca Guerreiro, mestra e doutoranda em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com orientação dos pesquisadores Míriam Plaza Pinto (UFRN) e Raone Beltrão-Mendes (ICMBio). Os cientistas visitaram 30 fragmentos florestais e registraram uma densidade de grupos muito superior à observada em estudos anteriores com a mesma espécie ou com outras aparentadas. Guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae) corre risco de extinção marcosilva / iNaturalist VEJA MAIS: Nova espécie de rã-veneno 'rara' é descrita na Amazônia Gêmeos celebram 15 anos de observação de aves com registros raros Terra da Gente promove fórum gratuito de educação ambiental; veja programação O perigo do "efeito de adensamento" A explicação para essa superpopulação local é o chamado "efeito de adensamento". Com a paisagem fragmentada pelo desmatamento e o isolamento das áreas de mata, os grupos não encontram para onde ir. "O principal problema não é apenas viver em fragmentos pequenos, mas sim o isolamento. Quando os grupos ficam confinados, a dispersão entre áreas se torna difícil ou impossível", explica a pesquisadora Bianca Guerreiro. Mais da metade da área original de ocorrência do guigó já foi convertida para usos humanos, como a agropecuária. Como o guigó é um primata que depende diretamente das árvores e raramente atravessa áreas abertas — não havendo relatos da espécie utilizando pastagens ou plantações para se locomover, a falta de conexão entre as matas "encurrala" os animais nos espaços disponíveis. Competição e perda genética Guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae) corre risco de extinção caracalshan / iNaturalist Viver em espaços reduzidos e sem conexão com o mundo exterior traz consequências biológicas severas. O confinamento aumenta a competição por recursos naturalmente limitados, como alimento e abrigo, o que pode afetar diretamente a saúde e a reprodução da espécie. Além disso, essas populações tornam-se extremamente vulneráveis a eventos extremos, como incêndios e secas. A longo prazo, a ausência de novos indivíduos chegando de outras áreas reduz drasticamente a diversidade genética do grupo. "Populações com baixa diversidade genética tendem a ser mais frágeis, com menor capacidade de adaptação a mudanças ambientais e maior suscetibilidade a doenças", alerta Bianca. A conta do "débito de extinção" O guigó-da-caatinga é um dos primatas mais ameaçados do mundo Cristine Prates É nesse cenário de ilhamento que surge uma ameaça tratada no estudo como "débito de extinção". O fato de os macacos ainda estarem presentes nas áreas degradadas pode passar uma falsa sensação de segurança, escondendo um declínio populacional inevitável. "Chama-se débito de extinção porque é como uma conta que ainda não foi paga", detalha a pesquisadora. Mesmo que a espécie continue no local após a degradação do habitat, as consequências tardias do desmatamento e do isolamento tornam a probabilidade de extinção local no futuro altíssima. Pressão contínua e a necessidade de corredores Guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae) corre risco de extinção birdernaturalist / iNaturalist Mesmo os grandes fragmentos de Caatinga que ainda resistem sofrem pressão contínua. Atividades comuns na região, como a pecuária de "fundo de pasto" (onde o gado é solto na mata) e a extração seletiva de madeira, reduzem a qualidade da floresta. O pisoteio do gado consome plântulas, impedindo a regeneração das plantas, e a presença dos animais de criação aumenta o risco de transmissão de doenças para a fauna silvestre. Para evitar que o guigó-da-Caatinga desapareça, a solução imediata passa por proteger o que restou — atualmente, menos de 10% da Caatinga é protegida por unidades de conservação — e, obrigatoriamente, reconectar a paisagem. Guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae) corre risco de extinção niallp /iNaturalist A pesquisadora reforça que a restauração florestal tem um papel central. "A restauração deve ser feita de forma a reconectar fragmentos, criando os chamados ‘corredores ecológicos’ e permitindo deslocamento e fluxo gênico entre grupos", afirma. Em um cenário de mudanças climáticas intensificadas, essas rotas verdes são essenciais não apenas para o guigó, mas para garantir que toda a biodiversidade da Caatinga tenha rotas de escape e adaptação. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/05/13/primata-ameacado-sofre-com-efeito-de-aglomeracao-e-risco-silencioso-de-extincao.ghtml


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